Criador do sistema SBS, brasileiro destaca que será o futuro da Vela de Oceano

Sistema fez sucesso na Americas Cup no barco do time campeão, o New Zealeand


Foto: Studio Borlenghi
 
Manoel Chaves, filho de mineiros, radicado em Santos, bateu um papo com a Associação Brasileira de Vela de Oceano e comentou sobre sua criação de 2016, o SBS, Sailing Booster System, de aceleração dos barcos que foi utilizado na Americas Cup, a competição mais antiga do mundo, com título do Team New Zealand. Ele destacou que o sistema será o futuro da Vela de Oceano não só pelo mundo, mas também no Brasil. 

Chaves, Engenheiro Naval e que é o proprietário da MCP Yachts, estaleiro referência de Iates na América do Sul situado no Guarujá e cria do Clube Internacional de Regatas, em Santos, também comentou sobre a disputa judicial com o Emirates Team New Zealand que teria copiado a ideia de sua equipe e ignorou os pedidos de licença mesmo com patentes registradas no Brasil e na Nova Zelândia.

ABVO - De onde você é, como você iniciou na vela e qual sua história ?
Manoel Chaves - Vim de família de pais mineiros e aqui em Santos com 15 anos meu pai me deu uma prancha e depois eu descobri a vela e comprei um Simplex, comecei a reformar e comprar barcos . Navegava nele, depois adquiri um Snipe, corria regatas de Pinguim , Sharpe, com o tempo consegui comprar um Lightning, velejava aqui em Santos, dava aulas de vela no Clube Internacional de Regatas. Decidi fazer engenharia Naval, entrei na politécnica da USP, comecei a correr regatas, fui Campeão Paulista da Gaivota 23, corria oceano. Me formei na poli e aos poucos como Engenheiro Naval fui trabalhando pesado, muitas horas por dia e aos poucos fui me afastando das regatas e focando no trabalho. Fui montando uma família, comprei um Atol 23 , comecei na correr com ele, fui campeão Paulista em 1973 com ele na Cruzeiro em oceano. Depois comecei a construir e projetar grandes iates. Os projetos dos maiores Iates da América do Sul são nossa equipe, a MCP Yachts . Projetamos e construímos barcos de até 142 pés Nesse processo resolvi comprar um veleiro zero na Europa, um Benneteau 42 cockpit central, nesses 18 anos, sempre entre maio-junho, setembro-outubro, navegavamos pelo Atlântico Norte, Inglaterra, Portugal, norte da França, todo mediterrâneo, costa da África, Sardenha, ilhas Baleares, Sicília, Tunísia, toda Itália, Mar Adriático inteiro, Grécia, Turquia. Milhares de milhas nesse barco . Ultimamente comprei um Benneteau 57 que navego pelo Brasil. Sou da Vela Oceânica, corri muitas regatas, ganhei uma Santos-Rio alguns anos atrás. Hoje me dedico mais à vela de Cruzeiro que é meu prazer principal tanto no Brasil quanto no exterior.

ABVO - Como funciona o MCP Yachts e qual o foco ?
Manoel - O MCP Yachts tem 41 anos construindo iates, a maioria em alumínio. Já construímos no passado de aço há 30 anos. Há 25 anos nossas especialidades são os Iates em alumínio da América do Sul , nossos barcos sempre são muito respeitadas, tem valor de mercado excepcional . Quem quiser ter um MCP Yachts precisa esperar em torno de 18 meses até dois anos para fabricação e o mercado de usados é muito disputado , em semanas o barco é vendido. %Temos tido muito sucesso, nome muito bom no mercado . Ano passado nós docamos no estaleiro um total de 58 iates , todos acima de 83 pés, alguns de fora, uma vez que temos o maior Travel list da América do Sul e capacidade de içamento de 150 toneladas. Paralelamente à manutenção desses iates nós sempre construímos barco novo de Engenharia.

ABVO - Como surgiu a ideia do sistema SBS para barcos de vela de oceano e qual era proposta e objetivo ? 
Manoel - Em setembro de 2015 tive um estalo na cabeça e pensei em um sistema de estabilização dinâmica para veleiros, uma asa pivotada no costado à sotavento e outro conjunto à barla-vento que faria contra-peso no ar , suspenso no ar. No sota-vento uma asa quase vertical chamada "asa quilha"  fazendo sustentação lateral para sustentar os esforços laterais das velas enquanto na extremidade dessa asa quilha o bulbo e uma outra asa chamada "asa-lift" , essa asa-lift precisaria ser algo dinâmico em computador, um PLC, faz a leitura do barco e compensa conforme a alteração do vento e nesse sistema quanto mais vento mais lift,  quanto mais lift menos peso , menos deslocamento dinâmico do barco e exponencialmente o barco vai ganhando velocidade e sempre controlando o que chamamos de empuxo da asa-lift.



ABVO - O SBS foi patenteado ? Como foi ver os barcos na Americas Cup atingindo a faixa dos 40, 50 nós com frequência ? Foi por conta do sistema ?
Manoel - Isso foi sendo desenvolvido. Eu peguei um Atol 23 que eu tinha portei aqui, instalei eixos no costado, as asas pivotavam, sistemas hidráulicos que faziam o controle dessas e iniciei os testes do protótipo no início de 2016. Os testes foram muito interessantes, resultados excepcionais. Eu gerava um lift vertical de quase 450kg em um Atol 23 à 6 nós, um espetáculo, o barco não precisava de contra-peso nenhum , fiz algumas filmagens e iniciei testes de tanque de provas na Universidade de Jaú eles colaboraram conosco para que fizessemos os bancos dados, planilhas,  uma série de cálculos e fomos pro Boat Show de Annapolis, nos Estados Unidos, o United Sailing Boat Show em outubro de 2016. Voltando desse Boat Show lançando na internet o vídeo mostrando o sistema, no Youtube, paralelamente a patente no Brasil foi sendo desenvolvida e conseguimos a patenta do sistema no Brasil. No fim de 2016 o vídeo começou a ter picos enormes de visualizações, 14 mil por mês viam o vídeo até o final de 2017  , achamos muito estranho, não sabíamos o que acontecia, mas muitos viam dos EUA, Itália e Nova Zelândia quando a Americas Cup a organização lançou as regras do barco AC75 do veleiro padrão e nós assustados vimos que o nosso dispositivo patenteado no Brasil era a espinha dorsal do projeto AC75."

"O projeto do AC75 foi lançado e obrigava a todas outras equipes a cumprirem com aquele projeto o qual tinha nosso dispositivo. Nós mandamos uma carta registrada, DHL, para o Emirates Team New Zealand avisando que havia uma patente registrada no Brasil comprovante em 2016 e que eles não poderiam utilizar aquela patente sem licença. Eles simplesmente não respondiam as cartas, os emails, aos contatos telefônicos. Chegamos à conclusão que a patente precisaria registrada na Nova Zelândia onde haveria a competição . Contrarei advogados do exterior, eles iniciaram o processo de registro na Nova Zelândia. Imagina você, uma competição pela frente , Americas Cup e nós registrando a patente , era o Às de Ouro da competição . Foi uma luta muito grande, obviamente a patente estava difícil de sair porque a Nova Zelândia não tinha interesse que fosse registrada. Depois de muita luta eles não tinham como fugir, tínhamos todas as provas , todos os cálculos, a descrição do dispositivo, o protótipo, , a patente nos foi concedida. O governo local dá dois meses para alguém contestar a patente, provar que existia algo parecido ou similar e ninguém consegue provar . Então a patente é confirmada . Fui obrigado a contratar um advogado para mostrar ao Team New Zealand a patente na própria Nova Zelândia."

"Com a patente confirmada, nossos advogados foram até ao Team New Zeland e reconheceram várias semelhanças e alguns detalhes que não eram iguais, o que é ridículo . Patente é assim mesmo, uma cópia. Como eles não respondiam. Eles contrataram um escritório de advocacia chamado Danton que é o maior do mundo, fatura US$ 2,5 bilhões por ano e tem quatro mil advogados no mundo. Esse escritório nos ameaça e fala 'se preparem se vocês quiserem brigar vamos brigar em alto estilo e vocês vão gastar milhões e milhões de dólares e não vamos deixar que vocês assumam o controle do histórico da coisa , queremos para nós os louros do projeto ". Nas conversas telefônicas deixaram bem claro que não queriam ter associado a ideia que toda aquela tecnologia era derivada da América do Sul, isso insultava os olhos azuis do pessoal e aí eles não aceitam. nós somos obrigados a mandar carta para todas as outras equipes que vão conversando entre elas e com a Team New Zeland. O assunto sai nos jornais e todas ficam amedrontados, vários advogados internacionais vêm a nosso favor. Mas aquela história, se entrar na justiça vai gastar milhões e milhões de dólares e eles não vão arredar pé, tem verba de sobra eles e não querem em hipótese alguma e continuam não querendo que a criação da ideia, o espermatozóide, a engenharia parta da América do Sul"

"A equipe Luna Rossa, analisando conosco a situação, assinou um contrato de confidencialidade não podemos comentar nada a respeito . Não sei qual será o desdobramento desse contrato agora que eles perderam a competição pro Emirates Team New Zealand . O mercado , os advogados internacionais são extremamente favoráveis à nossa patente. A nossa preocupação maior é que eles reconheçam a ideia . Ninguém quer colocar o lado financeiro como principal ponto , queremos mostrar que foi o trabalho muito grande de minha equipe , iniciado por mim e seguido pela equipe e todos ficamos muito tristes , frustrada em ver pessoas que utilizaram nossas ideias não querem dar o mínimo apoio ou consideração ao start que fizemos. "

ABVO - Vocês estão pedindo ressarcimento financeiro na justiça ao Team New Zealand ?
Manoel - Nossa proposta sempre buscou o reconhecimento e não especificamente ressarcimento financeiro. Uma ação na Nova Zelândia iria contra o próprio governo daquele país que é sócio dos Emirados Unidos. Difícil obter sucesso em uma empreitada deste tipo. Estamos sim argumentando com as autoridades buscando sensibiliza-las diante da opinião pública.     
 ABVO - Vocês estão com pedidos de construção de barcos com o Sistema SBS após o sucesso que fez na Americas Cup ?
Quanto a construção de embarcações utilizando o dispositivo estamos abertos apenas no momento em auxiliar projetistas com a engenharia necessária. Nosso  estaleiro se encontra com a demanda já comprometida pelos próximos 2 anos.
 

ABVO - O que esperar daqui por diante do sistema SBS ? 
Manoel - Esse sistema de SBS, esse conceito é o futuro da vela oceânica. Os barcos de oceano daqui a dez, vinte anos todos irão ter , é igual à injeção eletrônica nos carros , são coisas a partir a fazer todo o conceito dos próximos projetos no futuro. As velocidades são extremamente elevadas. Novos projetos podem acontecer a partir daí. Temos um projeto em um 80 pés chamado "flying ahead time" que o nome já diz tudo.