De Florianópolis ao Rio de Janeiro a bordo de um veleiro de 30 pés

A história do barco Maestrale e da saga para a vinda ao Rio de Janeiro

Foto: Maestrale / Crédito: Fred Hoffmann


Por Adalberto Casaes - Velejador e Oficial da Marinha 


1- A partida.

 

A oportunidade de trazer meu novo Skipper 30, barco Campeão, de Florianópolis para o Rio de Janeiro, me encheu de alegrias e boas expectativas em 2016.

 

Contudo, a primeira dificuldade a ser vencida seria encontrar alguém disponível, quem sabe um dos meus veteranos tripulantes, para fazer a travessia comigo.

 

Depois de algumas tentativas encontrei a solução contratando competente jovem, velejador egresso do consagrado projeto Grael, que embora com pouca idade era bastante experiente, credenciado, inclusive, naquela ocasião, por recente participação em regata de Capetown, na África do Sul, para o Rio de Janeiro.

 

Da minha parte, oficial de Marinha com ampla experiência em navegação, somando na carreira 16 travessias atlânticas, presumivelmente experimentado com inúmeras regatas oceânicas, computando, além de uma “Buenos-Aires-Rio”, quase uma dezena de “Santos-Rio” e diversas outras regatas, não enxerguei dificuldades para o planejamento e execução da viagem que, na verdade, sucederia ida do Rio até exatamente Florianópolis, levando meu antigo barco àquele destino.

 

A travessia do Rio para Floripa, que não é alvo deste relato, transcorreu da forma planejada e, exceção à noite da nossa chegada, sob um tempo e condições maravilhosas, concluída após uma rápida escala em Ilhabela.

 

Já no local de partida, e considerando avaliação de janela meteorológica inicialmente favorável para o percurso de volta, providenciei o voo do meu parceiro para nosso encontro em Florianópolis.

 

Conhecido no meio da vela como Alex “Piu-Piu”, meu jovem e bem recomendado tripulante chegou na hora aprazada e combinada. Preocupavam-me, entretanto e logo depois, alguns sinais de mudança atualizando previsão dos ventos ao longo da derrota prevista.

 

Na Marinha, de onde guardo minhas experiências profissionais, navios de guerra navegam sob quaisquer condições quando a situação assim exige. Desde que as estruturas suportem, os riscos e o conforto da tripulação estarão sempre em segundo plano.

Na vela, ao contrário, e especialmente em travessia opcional, a segurança dos tripulantes e a preservação do material da embarcação tornam-se protagonistas.

 

Nesse cenário, e sob risco da chegada de frente fria trazendo incerto sudoeste, cogitei em atrasar nossa saída. Contudo, a consideração da possibilidade de navegar com vento folgado, associado à compreensível saudade da noiva manifestada pelo “Piu-Piu”, foram aspectos que modularam a decisão tomada. Na manhã da data planejada decidimos partir.

 

Meu planejamento previa fazer a navegação exatamente inversa àquela com a qual entregara o antigo barco. Assim, faríamos uma pernada diretamente até Ilhabela, para pequeno descanso, banho confortável, boa refeição, retomando a proa com destino ao Rio.

 

Nosso pequeno, e quase imenso infortúnio, aconteceu logo após a saída, talvez por falha de comunicação minha com o meu tripulante. Sim, porque na minha cabeça sempre esteve claro que eu sairia motorando da sede do ICSC (Iate Clube de Santa Catarina), buscando águas safas, pouco adiante, para montagem dos panos de transporte, velas de dacron, poupando o enxoval destinado às regatas.

 

Tal convicção se acentuou quando percebi que uma brisa do quadrante sul começava a construir, soprando com rajadas ocasionais que anunciavam vento com algum vigor em poucas horas.

 

Logo ao deixar o cais, sem que eu nada pedisse, meu parceiro, com iniciativa que me surpreendeu, encaixou a testa da mestra na canaleta do mastro e, rapidamente, iniciou a subida do pano quase até a metade do mastro, interrompendo o içamento devido ao enforcamento da parte inferior da testa da vela na base da amura, ocorrência muito comum quando essa faina é conduzida apenas a duas mãos.

 

Imediatamente, liberando o primeiro impropério da viagem, pedi pra arriar o pano reclamando com o Piu-Piu que ele deveria aguardar meu sinal para içar a vela. Mas, pior, já sob a força do vento, o pano não descia e tampouco subia.

 

Nesse cenário, já me culpando por não ter dado, previamente, instruções mais claras ao meu companheiro de viagem, encontrávamos com uma “meia vela” panejando sem controle e comprometendo minha visibilidade para vante. Busquei imediata solução e anunciei que iria investir em direção à parte mais rasa, indo à bombordo na saída do canal, para pegar uma das boias de arinque que estavam no visual, amarrar o barco e, portando pelo cabo de amarração, resolver com a devida calma o problema da vela. 

 

Nessa altura, na inescapável complicação que nunca deixa de aparecer em tais momentos, além do vento escalar complicando a manobra, meu tripulante teve dificuldade em dar o pronto com cabo na mão para conectar no arinque. Assim, sob aproximação difícil, de olho no ecobatímetro, manobrei aproando novamente buscando colocar a proa no vento em segunda tentativa para pegar a boia. Já muito próximo, chicote do cabo na mão do Piu-Piu, dei motor para sustentar o caimento do barco e tornar a faina mais leve para o homem na proa. Na sequência, o motor estancou.

 

Confesso que custei a entender o que se passava: o barco abatendo sem controle, sem vela, sem motor, e a bancada de pedra, talvez a menos de 500 metros, parecia me sorrir com ares diabólicos e ameaçadores.

 

A decisão a ser tomada parecia óbvia e, sem dúvida, daria solução àquela imprevista confusão. Larga o ferro, gritei com toda a força dos meus pulmões. Com agilidade e competência, em segundos o ferro estava na água; paga cabo até portar (!), completei em seguida sob o olhar atento e ação imediata do Piu-Piu.

 

Mas, difícil imaginar, ficou muito claro que o barco continuava garrando ao sabor do mar e do vento. Olhei o eco e a profundidade era pequena; e o cabo do ferro na mão indicava passar por baixo do barco e com tensão. Como, então, não unhara (?!).

 

Neste momento vislumbrei o pior, pois estávamos a garra. Questão de tempo para alcançar aquelas pedras sorrateiras. Passei a mão no VHF e, por sorte, tive resposta da Capitania. Reportei a emergência e pedi ajuda imediata. Contudo, avaliei que dificilmente nós sairíamos incólumes daquela situação.

 

A sensação de incompreensão do que se passava me tolhia ainda mais o raciocínio, sem nunca esquecer, pela minha formação de mergulhador e submarinista, que o pânico ou nervosismo apressam a “morte”.

 

Nesse momento, diria que a menos de 50 metros das pedras costeiras, consegui avistar a aproximação de um pequeno bote com dois abnegados bombeiros. Não sei se reagindo ao meu chamado ou ao aviso de alguma alma generosa que possivelmente avistara de terra o nosso sofrimento. Claro que avaliei que o pequeno bote não teria força de motor para nos salvar, mas, provavelmente, alguma coisa seria tentada.

 

Com todos os sentidos aguçados pela adrenalina que me dominava, em balançada mais forte do nosso barco percebi que havia um cabo junto ao casco, saindo da popa e dizendo para a proa, colado ao costado. Foi, para mim, a descoberta da incógnita da equação! Claro, um cabo escorregara da proa, solerte, e enrascara no motor. Meu proeiro, ao largar o ferro, não percebeu que fez o lançamento entre a proa e esse cabo, por armadilha traiçoeira da confusão na boia.

 

Ato contínuo alcançei a faca providencialmente deixada à mão no cockpit, e sob sensação mista de esperança e desespero, cortei o cabo que me pareceu ser uma escota.

Subitamente o barco deu um tranco, liberou o ferro que, apostei, tinha o início da sua amarra completamente presa pelo seio da escota com chicote fixado na proa, e, para mim já quase um milagre, portamos pelo ferro unhado.

 

Estávamos a menos de uma dezena de metros das pedras, os bombeiros lutando na nossa popa e, finalmente, um bote mais potente da Capitania chegando para nos socorrer. Foi o momento em que, tive certeza, sairíamos da enrascada.

 

 

 

2- O reparo e a retomada da viagem.

 

Chegar de volta ao clube, rebocados por embarcação da Capitania, cerca de uma hora após a partida, definitivamente, não foi uma boa sensação.

 

Logo ao subir o barco no guindaste foi possível ver o cabo de escota enrascado na rabeta, de tal forma que viria a exigir o desmonte da conexão das pás do hélice.

 

O reparo, com as dificuldades habituais de superação dos problemas que sempre aparecem no curso da solução, levou cerca de 4 longas horas, tempo suficiente para novas verificações e, principalmente, aprimorar a comunicação imprescindível entre mim e o meu bom companheiro tripulante. Assim, pudemos conversar mais  clara e detalhadamente sobre os próxImos passos que daríamos juntos.

 

A previsão confirmava a chegada do sudoeste, com ondas de 2.5 metros, o que já era bastante para um barco de 30 pés. Ainda assim, pelo menos, a força da natureza estaria nos empurrando na direção do destino.

 

No íntimo, cheguei a cogitar alternativa que aparecia como a mais prudente; voltar de avião para o Rio, aguardar nova janela meteorológica mais consistente e favorável, e regressar novamente para Florianópolis na ocasião devida para dar seguimento à empreitada.

 

Meio da tarde, refeitos do susto, e sob alvo de olhares já duvidosos dos presentes que nos acompanhavam do cais, após nossas reflexões, e sob a influência do entusiasmo contagiante do Piu-Piu, largamos nossas amarras para pernada que deveria nos levar até Ilhabela.

 

Desta vez, bem combinados, navegamos no motor até área safa e segura, e depois de passarmos sob a ponte alcançando águas favoráveis, filamos ao vento e içamos a vela mestra de transporte, feita em dacron, que subiu tranquilamente e sem transtornos na manobra agora feita a quatro mãos.

 

Não custou muito e as condições de vento e mar logo indicavam que certamente iriam superar a previsão.

 

Sob bom avanço inicial e navegação ajustada com a proa em Ilhabela logo começamos a sofrer com o mar, cujas ondas cresciam pela nossa alheta, enquanto o vento escalava com rajadas de 25 nós do quadrante sul. O governo do barco tornou-se difícil, e o piloto automático teve que ser substituído pelo controle manual e direto na cana do leme, exigindo revezamento no timão.

 

As condições reais estavam bem acima daquelas previstas, e com o barco sofrendo cada vez mais com ondas que já encostavam nos três metros, manifestei ao meu tripulante a intenção de “arribar”, buscar abrigo, protegendo o barco e demandando baía que se oferecia em terra à feição da nossa derrota.

 

O bravo Alex Piu-Piu, muito animado, respondeu que já estivera navegando em condições bem piores que aquela, propondo, com imensa disposição, que continuássemos!

 

Na verdade não estávamos, realmente, no pior dos mundos, embora minha experiência aliada à intuição me dissessem que a noite não seria fácil. Tudo somado, e tentando evitar maiores atrasos, concordei em prosseguir.

Mais duas horas e o vento firme chicoteando suas rajadas pela nossa alheta, combinado com ondas que subíamos e, principalmente, descíamos com violência, tornavam o controle do barco bastante trabalhoso e difícil. Seguíamos com motor ligado para auxiliar a velocidade de avanço e a vela mestra içada.

 

Foi o momento em que o Piu-Piu, ponderadamente, sugeriu buscar abrigo. Já era noite, cerca de 19:00 horas, e estávamos, ambos, completamente molhados e os sinais de cansaço eram evidentes.

 

Desci à cabine e posso registrar que experimentei uma das maiores dificuldades da minha vida ao acessar instrumentos e recursos de navegação; eu tinha que me segurar todo o tempo uma vez que as violentas quedas sobre os cavados das ondas causavam pancadas e movimentos inesperados do barco. Em pouco tempo, contudo, avaliando as alternativas mais favoráveis e evitando qualquer retorno sobre o avanço conquistado, decidi por colocar a proa em Itajaí, cuja chegada ocorreria em mais cinco horas, até meia-noite.

 

Em situações como essa, para retornar às condições de controle e equilíbrio do barco, convém, em primeira providência, reduzir a superfície vélica exposta. Assim, sob condições difíceis, tendo que alinhar o mais possível a proa do barco com o vento e o mar, conseguimos fazer a manobra de rizo, dobrando uma forra de vela mestra, conservando nossa velocidade de avanço com um pouco menos de sofrimento.

 

Contávamos as horas para alcançar Itajaí. O novo rumo acomodou melhor o barco, mas o sudoeste cruelmente continuava a nos castigar. Não passou muito e um dos pontos de fixação da esteira da vela no rizo começou a ceder. Não havia muito o que fazer, a não ser aliviar a tensão no pano dentro do possível para evitar que o rasgo crescesse.

 

E foi assim, após pequena travessia vencida com grande sacrifício, que alcançamos a entrada de Itajaí; era pouco mais da meia-noite, agora sob bem-vinda paz de vento e mar, entramos na barra do rio Itajaí-Açu.

 

Com a experiência da carreira de Oficial de Marinha com diversas entradas precedentes naquele porto, usamos rumos práticos, baixa velocidade e olho constante nas indicações do ecobatímetro indicando nossa profundidade abaixo da quilha. Foi um alento maravilhoso estar em águas abrigadas, vendo ao lado as luzes da cidade, sem sofrer com vento, balanço acentuado e, sobretudo, sem os borrifos constantes das ondas explodindo no casco.

Que dádiva!

 

Logo ao superar a entrada da barra lembrei-me que a Capitania de Itajaí estaria por perto. Certamente seria bom lugar para o nosso abrigo e apoio.

 

Avançando com cautela pelo canal de acesso ao porto, foi fácil identificar o prédio da Capitania, a bombordo, na posição esperada. Contudo, para minha surpresa, viria a ocorrer episódio inusitado e quase cômico.

 

Manobrando o barco para atracar ao trapiche, rapidamente apareceu o homem de serviço, vigilância armada, dando ordem aos aos gritos para que me afastasse. Repliquei, com calma, que eu era Almirante da Marinha, precisava de apoio e iria atracar. Como tréplica, ouvi o seguinte: “que almirante que nada! Sai daqui!”, sob ameaça de fuzil nas mãos do sentinela. Foi o suficiente para me dar conta que dois navegantes, ensopados sob capas para mau tempo, não tão impermeáveis, desgrenhados, realmente estaria muito distante do estereótipo de um Almirante na mente daquele jovem militar.

 

Tentei acalmá-lo, sem me afastar da firmeza, bradei meu nome, posto, e disse que após a atracação mostraria minha identidade. Enfim atracados, chamei o tão atento quanto desconfiado Cabo, e, para sua surpresa, foi possível constatar a realidade, ainda que sob um ar incrédulo que marcou minha memória.

 

Na sequência, foi natural que a inesperada visita tenha causado grande movimentação. De fato, pouco depois e no início da madrugada o Capitão dos Portos, pessoalmente, lá estava dando-nos as boas-vindas e desculpando-se pela atitude do inexperiente militar, sobre o qual, aliás, entendendo sua preocupação e interpretação dos fatos, não fiz qualquer tipo de carga.

 

Para mim e o meu tripulante, honrando a tradicional cortesia naval, nos foram oferecidos ótima refeição e excelente camarote para passarmos a noite. Era momento de descanso e posterior reparo na vela rasgada para continuação segura da nossa viagem.

 

 

3- De Itajaí, colocando a proa em Ilhabela.

 

  A noite foi ótima! Depois do café da manhã, aliás muito superior em qualidade àquele que teríamos a bordo na mesma manhã, nosso maior problema era encontrar solução para o reparo em nossa robusta vela mestra de dracon para darmos seguimento à travessia.

 

Com diligente apoio dos amigos da Capitania fomos parar em inusitado artífice, reparador de toldos, o mais próximo que encontramos em comparação com uma veleria, naquele momento inexistentes na cidade.

 

O reparo foi “grosseiro” com aplicação, a quente, de pedaços de lona sobre a área afetada. Contudo, considerando as circunstâncias, estávamos de volta!

 

O tempo melhorara muito e meu companheiro de travessia, com alegria, elogiava a natureza com auspicioso comentário: “agora vai ser mole!”...

 

Só que não era o que eu esperava. Estudando cuidadosamente a previsão meteorológica e verificando a distância que teríamos a vencer até a atracação em Ilhabela, nosso próximo destino, haveria a entrada de Lestada fresca, superior a 25 nós, acompanhada do mar, novamente com ondas de mais de 2 metros. Uma vez que, segundo a previsão, isso ocorreria ao início da noite do dia seguinte, assumi que chegando até 22:00 o “sofrimento” seria tão aceitável quanto administrável. Portanto, tratamos de cuidar para avançarmos o máximo possível enquanto ainda sob bom tempo.

 

Navegamos com muita tranquilidade ao longo do dia. Contudo, no meio da madrugada, o vento de Leste começou a se apresentar, ao passo que o mar, vindo de leste/nordeste causava fortes pancadas da proa ao cair nos cavados das ondas. Seguíamos com vela e motor para assegurar bom avanço, e o remédio foi reduzir as rotações caindo um pouco a velocidade, aumentando nosso conforto e também a segurança do material.

 

Tive dificuldade para conseguir dormir alguma coisa durante meu quarto de descanso, uma vez que os solavancos tornavam-se cada vez mais acentuados. Logo ao clarear, coincidindo com o momento de render o Piu-Piu, alerta no cockpit, olhando o cenário fiz minhas avaliações.

 

Não custei a perceber que a Lestada entraria mais cedo e mais forte, o que me levou à algumas decisões imediatas. Providenciamos o tanqueio, transferindo combustível das bombonas de reserva para o tanque que alimentava o motor, manobra sempre delicada e complicada na mesma medida em que o mar se agita. Além disso, avaliei mais prudente ajustar nossa proa para Santos, cerca de 70 milhas mais próximo que Ilhabela, o que permitiria chegada certamente antes que as condições pudessem piorar ainda mais.

 

No mar, a percepção dos sinais da natureza e a correspondente antecipação de providências decorrentes é aspecto fundamental para a segurança e sobrevivência. Dessa maneira, prevendo que o vento iria escalar, mesmo que sob as ponderações do companheiro tripulante, optei por rizar, adiantando a manobra de redução de área vélica mesmo ainda sob condições de pleno controle. Eram cerca de sete da manhã, o mar encrespava, o vento escalava soprando de Leste, mas prosseguíamos, agora sob as novas condições, navegando com muito controle.

 

Mas, não custou muito, duas horas depois, portanto às nove da manhã, a situação de mar e vento pioraram muito. Ainda bem, as providências precedentes, agora absolutamente necessárias, se mostraram oportunas e acertadas.

Foi fácil concluir que a navegação até Santos seria extremamente sacrificada para nós e para o barco. As ondas já alcançavam o dobro do previsto, superando 4 metros, enquanto que o vento, agora acompanhado de chuva e baixa visibilidade, encostava nos trinta nós. Teríamos que arribar, mas eu não sabia onde...

 

Desci à cabine para navegar. Pelo nosso través de bombordo, distante 36 milhas, se apresentava a Ilha do Bom Abrigo, local pelo qual passei ao alcance visual do seu Farol tantas vezes nas minhas singraduras de Oficial de Marinha. A decisão foi tomada! Era hora de conhecer aquela emblemática ilha.

 

No meio da tarde, sob muito vento, chuva intensa e mar bastante agitado alcançamos Bom Abrigo. As condições não permitiram o uso do “piloto automático” e nos revezamos no leme sob o estímulo crescente do visual da ilha cada vez mais próxima.

 

Ao buscarmos a enseada na face protegida da ilha pudemos observar 20 pesqueiros e três veleiros, todos já abrigados do mau tempo que piorava a cada hora. Nossa decisão, portanto, revelou-se muito acertada.

 

Fundeamos em espaço amplo e bem protegido, mas só relaxamos depois de confirmado que o ferro estava bem unhado no fundo, conferindo a segurança que precisávamos para passar a noite.

 

Contudo, outra aflição crescia. Estávamos sem qualquer contato rádio ou telefônico, não tínhamos spot de posicionamento satelital e não chegaríamos na escala planejada conforme previsto. Certamente isso iria gerar preocupação aos amigos e familiares que nos acompanhavam em terra.

 

 

4- Na Ilha do Bom Abrigo.

 

 Foram inúmeras chamadas de comunicação via rádio para Estações Costeiras sem contato, somadas à diversas tentativas de ligação pelo celular, frustradas pela ausência de sinal ou cobertura da nossa operadora.

 

O tempo passava e a certeza da apreensão daqueles que certamente esperavam nosso sinal de vida crescia exponencialmente. Precisávamos encontrar solução!

 

Olhando para terra vislumbrei o farol no alto da ilha, e, mais abaixo, uma modesta construção que, avaliei, seria habitação ou abrigo do faroleiro. Não havia alternativa: eu teria que nadar até lá, vencendo cerca de 300 metros até a pequena praia.

 

Fazia frio. O tempo encoberto com chuva fina nos obrigava ao uso de agasalhos e capas de proteção a bordo. Tomei para mim a responsabilidade da empreitada.

 

Eu já havia defrontado condições piores, lembrando das agruras impostas durante o curso de Mergulhador na Marinha, memórias estimulantes a despeito de tanto tempo passado. Assim, reunindo alguma coragem e muita força de vontade, já nem sei em quais medidas, apenas de sunga, e nada mais, sob os olhares incrédulos do Alex Piu-Pi eu me lancei n’água.

 

Confesso que imediatamente após mergulhar eu voaria se tivesse asas. Sob o impacto de água gelada em contato com o corpo, cadenciei ritmo forte de braçadas impondo respiração e movimento tão frenético que, em pouquíssimo tempo, eu estava na areia. Avistei uma fonte, daquelas que vertem água doce refrescante e potável, um pequeno riacho vindo direto das partes altas da ilha. Banhei-me, naquela profusão de água límpida, e senti o imenso prazer de temperatura, agora, muito mais amena sobre o corpo. Claro, foi uma questão de referência e comparação, mas, de fato, naquele momento foi muito agradável e um verdadeiro prêmio ao esforço que eu acabara de empreender.

Olhei para o barco que já parecia pequeno na sua posição, e parti terra adentro em busca do faroleiro.

 

Logo encontrei dois funcionários civis que guarneciam o farol. Muito simpáticos e prestativos, ouviram com atenção o meu relato. Um deles, com precisão de detalhes, orientou sobre uma pequena pedra, elevada alguns metros adiante, onde, assegurou, eu teria sinal para fazer minha ligação pelo celular.

 

Em contato com minha Família, em tom de muita emoção, choro e alívio da minha mulher, fiquei sabendo que meus colegas da Marinha tinham sido acionados após avaliação e decisão de “conselho de guerra” com os Filhos. Apostavam, com esperança e confiança, que eu estaria superando dificuldades eventuais, mas fizeram a opção, correta diante dos fatos conhecidos por eles, de informar a um dos meus amigos na Marinha. Dei conta, portanto, que a Marinha já estava iniciando buscas para encontrar o veleiro perdido com um Almirante a bordo, que não chegara no dia anterior a Ilhabela, conforme previsto e anunciado.

 

Felizmente, conseguimos suspender as providências deflagradas!

 

Foram cerca de 36 horas de fundeio, até que o tempo melhorasse, com direito a camarões e peixe fresco cedido pelo Faroleiro, que resultaram em pratos maravilhosos, degustados e apreciados por mim e pelo Alex.

 

 

5- Da ilha do Bom Abrigo para o Rio de Janeiro, com escalas.

 

As vagas e o tempo chuvoso melhoraram bastante ao longo das 24 horas seguintes. Ainda assim, evitando precipitações, somente suspendemos na outra madrugada sob condições estáveis e confortáveis para a travessia. Mas, optamos por manter a proa em Santos, principalmente por razões logísticas.

 

Muito pertinente comentar que, manobrando para nossa atracação no cais do Iate Clube de Santos, justamente em momento distante não mais que três metros do trapiche, o motor apagou quando engrenei a ré; sem outro recurso, fiz o barco rabear com o leme para ajudar a reduzir o seguimento, e usamos a “tração humana” para parar o barco e atracar com segurança.

 

No dia seguinte, com fartos recursos da área do Guarujá, um mecânico trocou o filtro de combustível que entupira. Porém, não deixamos de agradecer aos céus que a avaria ocorrera só ali, pois se tivéssemos insistido para alcançar Ilhabela inevitavelmente a demanda teria que ser completada inteiramente à vela.

 

Descansados, alimentados, barco reabastecido, prosseguimos passando rapidamente em Ilhabela para renovar o combustível, aproveitando para mais uma refeição quente.

 

A viagem na sequência, incluída a feliz chegada ao Iate Clube no Rio ocorreu sem problemas e com o tranquilo desfrute dos encantos da travessia. Nosso skipper 30, Maestrale, nos daria muitas alegrias e inúmeras vitórias nas raias de regatas.

 

Finalmente, neste ano de 2020, negociamos a compra de novo barco, o Maestrale Due, um veloz Felci 315. Nosso antigo Maestrale entrou na composição do negócio e, quando concluo este relato, ele já se encontra em segurança, justamente em Florianópolis, de onde havia saído alguns anos antes.

 

Ao encerrar não posso deixar de renovar meu agradecimento ao competente homem do mar, Alex “Piu-Piu”, registrando, a título de conclusão, três observações que destaco como lições  essenciais do episódio que vivenciamos.

 

Em primeiríssimo lugar, jamais pode ser subestimada a força da natureza! Portanto, em qualquer travessia, afaste a pressa; a navegação planejada deve ser realizada, sempre e rigorosamente, sob condições meteorológicas favoráveis, não importando o tempo de espera para que tenhamos tais condições.

 

Além disso, é minimamente prudente estabelecer previamente “waypoints”, ou seja, pontos da derrota, adrede assinalados com indicação da melhor alternativa para arribar, se necessário.

 

E, por último, mas não menos importante, não faça economia para comprar o equipamento e alugar um satélite de posicionamento, para que, em terra, todos saibam onde você está. Não são valores inicialmente desprezíveis, mas se tornam irrelevantes diante do contexto para qualquer tipo de travessia oceânica. Na verdade, essa simples providência que cuidei de adotar logo após nossa chegada, teria aliviado, totalmente, as preocupações que involuntariamente causamos.