Está ficando bom…EUA recebe Mundial combinado de ORC/IRC em setembro

Todo mundo sabe que o centro gravitacional do nosso esporte é em Europa, com sua geografia concentrada, diversidade e capacidade econômica de sustentar qualidade e inércia. Mais de 75% dos Certificados IRC e 90% dos Certificados ORC emitidos em 2019 foram para barcos com base na Europa. Então, não é de surpreender que Mundiais que utilizam as duas plataformas tenham sido realizados por lá: o Mundial combinado na La Haia teve 85 inscritos de 15 países e o Mundial 2019 ORC em Sibenik teve 109 inscritos de 17 países.

Mas o que acontece com aqueles que querem brincar de regatas oceânicas nesse nível fora da Europa? Nunca terão a oportunidade de competir seriamente numa raia fora da própria cultura? É claro que há níveis altos de competição na IRC e ORC e velejadores extremadamente talentosos procedentes de Austrália, Nova Zelândia, Japão, América do Norte, inclusive da América do Sul, mas os gastos de enviar o barco, treinar e correr em Europa são bem íngremes para todos salvo os programas mais saudáveis economicamente.

Foi Steve Benjamin, no seu papel de representante dos EUA no Congresso da ORC de três anos atrás, que sugeriu interromper o ciclo natural até o momento de ter um Mundial no Báltico e o seguinte no Mediterrâneo e levar  o evento a uma raia que a quase vinte anos não organiza um campeonato desse nível: o New York Yacht Club na sede de Newport (RI). O mandato da World Sailing que estabelece um Mundial oceânico utilizando as duas plataformas, IRC e ORC, encaixou muito bem no seu projeto, já que o clube utiliza os dois sistemas habitualmente nas regatas que organiza. Além disso, muitos representantes presentes na ocasião acreditavam que fazia tempo demais sem que os EUA tivessem um evento de handicaps dessa magnitude.

Isto não significa que os talentos norte-americanos estiveram dormindo todos esses anos: o tamanho e a escala do universo de competição a vela é tão grande, que começando em 1990, a chegada das classes one-design oceânicas tirou muitos dos velejadores que corriam na plataforma do momento, IMS, para a nova modalidade: um estilo de regatas que até os dias de hoje domina as competições nos EUA: regatas de classes de barcos com quilha, como pode ser visto em muitos dos campeonatos ao redor do pais.

Mais, é a popularidade dos one-designs que afastou a cultura de medição de ratings das regatas, que se viu reduzida aos maiores eventos nas costas leste e oeste e nos Grandes Lagos, tendo com base uns poucos centos de barcos, e não milhares como antigamente. Essa tendência está sendo suavemente revertida, com a introdução recente da ORC em frotas locais: em 2019 foram emitidos pela US Sailing quase 300 Certificados ORC e 150 IRC. 

Dado o hiato de quase 20 anos de quando se realizou o ultimo Mundial baseado em medições, com suas estritas inspeções e protocolos de medição, um seminário de treinamento de medidores foi organizado para ser realizado em Março 2020 em Annapolis. Na Escola Naval o clima não é tão inclemente como em Newport nessa época, e conta com toda uma gama de barcos de oceano diferentes na mão para treinar os novos medidores. São esperados medidores de todo o país, além do Canadá. E talvez outras nações.

Gestão de regatas também está no programa de atualização: após tantos anos de regatas de classe, os Oficiais estão acostumados a simplesmente estabelecer uma direção de vento para ter um barla-sota decente e de duração de acordo a classe e notar resultados por ordem de chegada, sem tomar tempos verdadeiros. 

Resultados duplos serão utilizados nas regatas inshore do Mundial 2020, aplicando ratings IRC junto a PCS (Performance Curve Scoring) da ORC. Distâncias precisas das pernas e direções do vento são necessários para os cálculos do PCS, o que não é um problema visto a quantidade de trackers e acesso a fontes fidedignas de informação sobre os ventos. As regatas de percurso longo serão computadas com número único de ambas as plataformas.

O tema mais complicado é como decidir com os resultados dos tempos corrigidos da ORC e da IRC para definir os ganhadores. Os responsáveis técnicos dos dois sistemas elaboraram um modelo mais pratico que o utilizado no Mundial de La Haia, que foi simplesmente somar os pontos ganhos em ambos os sistemas.

O plano é primeiro calcular os resultados de cada regata com cada sistema de rating e assim obter resultados em tempo corrigido que estabelecem um ganhador. Esse tempo corrigido é transformado em 0 e assim são determinadas as diferenças de tempos corrigidos aos outros competidores. Essa diferença em tempo corrigido utilizando IRC e ORC são então mediadas e esses resultados são os que vão estabelecer a lista de posições. 

Este método foi testado com os tempos verdadeiros coletados em La Haia em 2018 e se obtiveram resultados muito similares aos obtidos com o método anterior: os barcos no topo da lista nas diferentes classes ficaram nas mesmas posições em todas as regatas, com algumas mudanças nas posições inferiores. O novo sistema deixou os resultados em tempos corrigidos mais nivelados, sobre tudo na Classe C (os barcos menores e com mais inscritos), então se acredita vai produzir resultados mais semelhantes e justos entre os competidores em Newport. 

Outros desafios são como equalizar os detalhes particulares de cada sistema quando eles encaram as mesmas definições de formas opostas. Como exemplo, IRC ratea Códigos 0 de testa livre amurados no gurupés como ¨genoa¨ quando a envergadura central é menor que 75%; IRC entende que essa vela pode ser utilizada em qualquer situação e não como vela de unicamente de ventos francos, e é rateada em função disso.

Em contrapartida, ORC hoje, ratea essas velas de envergaduras menores como o que hoje se chama de ¨genoa içada livre¨, diferentes dos genoas amurados no convés e presos ao estai de proa. 

Tudo isto significa que um Código 0 feito para os dois sistemas terá uma envergadura central mais restrita que os 75% e será contabilizada com ¨balão¨. Não é problemático nos barcos maiores que tem 4 ou mais balões, mas nos menores com limitação de até três balões a bordo, pode forçar decisões difíceis em entre as escolhas de A0, A1 e A3…

Em outro quesito, estão sendo negociadas taxas com descontos especiais para transporte em navios dos barcos de Europa que queiram participar, com transportadoras oferecendo embarques no Báltico, Southampton e no Mediterrâneo. Times de vários pontos internacionais já estão inscritos: de Inglaterra, França, Alemanha, Itália, inclusive Argentina.

Com 31 inscritos de seis nações até 31 de Dezembro, este Mundial está a caminho de superar seu predecessor, Newport 2000. Há pelo menos três barcos em construção especificamente para este evento, com inúmeras otimizações sendo realizadas em muitos barcos existentes; com um pouco de sorte, regatas de handicap farão um reingresso triunfal no cenário norte-americano!

O Mundial será disputado entre 25 de setembro e 3 de outubro e mais detalhes podem ser encontrados aqui 

Ajuda na tradução para Manolo Bunge, Medidor Chefe IRC da ABVO. Artigo retirado de Dobb Davis, para revista ¨Seahorse¨ de Fevereiro 2020.