Minha história na vela brasileira, por Roberto Rocha Azevedo

Desde meados dos anos 50, eu escrevia sobre Vela n’O Estado de São Paulo e também para a Yachting Brasileiro (a editora era a D. Edith Boehm, que ficava no escritório do Fernando Pimentel Duarte, na Cia. Industrial Santa Matilde) e também para a Revista Vela, do Annibal Petersen Junior, com escritório na Rua Buenos Aires.

 

Em 1955, o Mariano Ferraz, Presidente da FPVM (atual FEVESP), me convidou para ser o 2º Secretário e Diretor de Divulgação da Federação, em substituição ao Luiz Alberto Labouriau Trucco. Eu fiquei nesse cargo por cerca de seis anos, pois após o falecimento do Mariano Ferraz, o Paul Buckup assumiu a Presidência e pediu para que eu continuasse nessa função, até que passei à Secretário da Federação substituindo o Adriano de Oliveira. Continuei como Secretário até 1969, quando o Ernesto Reibel foi eleito Presidente após o falecimento do Buckup. Ao final desse ano eu me mudei para o Rio de Janeiro e deixei a Secretaria da Federação Paulista, ficando apenas o seu representante junto à CBVM.

 

Durante esses anos, os principais eventos organizados pela FPVM foram as Regatas do IV Centenário de São Paulo, em 1954; os Jogos Pan Americanos, de 1963, e a expansão da vela para o interior do Estado em 1964, quando os Campeonatos Paulistas das classes menores – Pinguim, Snipe, Finn e Flying Dutchman – foram realizados no Lago Azul, na represa de Americana.

 

Na Guarapiranga disputei regatas em Pinguim, Sharpie 12M, Snipe, Lightning e Finn, e também participava de algumas regatas de Oceano como tripulante, ora do Markab, de Mentor Muniz, ou do Moema, do Otávio Salles.

 

Tendo me mudado para o Rio, fui convidado para assumir a Comodoria em lugar do Mário Salles, no final de 1969. O momento era bastante oportuno, porque começávamos a importar barcos mais modernos que podiam agora disputar em igualdade de condições com nossos hermanos argentinos a tradicional regata Buenos Aires-Rio, que não tinha um barco brasileiro como vencedor desde o feito do Cairu II, do Jorge Geyer, quase 20 anos antes.

 

Com o apoio da CBVM e do CND e graças a contatos feitos pelo Diretor Internacional da ABVO Philip Jenkins, trouxemos para o Rio o Secretário Adjunto do RORC-Royal Ocean Racing Club, que ficou conosco por 6 meses ajudando a reestruturar nossa vela de Oceano. Também introduzimos um moderno sistema de Ratings para IOR, importando o programa Fortram IV Versão H do Offshore Racing Council, trabalho esse coordenado pelo Almirante Osório Pinto e liderado pelo Maurillo Vinhas de Queiroz.

 

Essa renovação começou com o Neptunus III, do Sérgio Mirsky, o Saga BL111, do Erling Lorentzen, e o Pluft BL105, do Israel Klabin. O GVEN seguiu a mesma linha e importou 2 CAL-40, o Villegagnon e o Coligny, e aí a febre pegou. Vieram os Swan 43 (Wawatoo, Tuna e Santa Rita); mais 2 Cal 40, Saravá e Poseidon; um Cal 39, Sindbad; um Ericsson 39 para o Sérgio Lacerda; o novo Swan 51 Pluft II, e o novo Saga, one-off do Lorentzen; O Mario Inecco trouxe um C&C 40 (Maduza) enquanto Mário Besse e Jacques Mille importaram cerca de 20 Arpeges da Dufour, que foram uma verdadeira escola de iniciação à vela de oceano em nosso País. E foi nessa época, 1970, que criamos o primeiro Circuito Rio, competição que até hoje é a referência da vela de oceano brasileira, em seus 45 anos de disputa.

 

E os resultados não tardaram a aparecer: primeiro, a vitória do Pluft na Buenos Aires-Rio de 1971, mesmo ano em que mandamos nossa primeira equipe para disputar a Admiral´s Cup na Inglaterra (Pluft, Wawatoo II e Villegagnon). No ano seguinte, o Saga brilhou na Onion Patch, nos Estados Unidos, fazendo com que conseguíssemos trazer 11 dos melhores barcos estrangeiros para o Circuito Rio, com nomes do porte de Ted Turner e Dennis Conner, ambos vencedores da America´s Cup anos depois.

 

Nossa participação na Admiral´s Cup se estendeu pelas disputas seguintes dos anos 70 (anos ímpares, 1973, 75, 77 e 79), com destaque para a participação do Saga, vencedor geral e na Classe da Fastnet Race em 1973 e na sua classe novamente em 1975. Tivemos participações também na Onion Patch, com o Krishna e o Kangaroo, e realizamos no Rio de Janeiro a última Two Ton Cup, em 1978.

 

Menção se deve fazer a duas regatas de importância, criadas nessa época, a Cape Town – Rio (1973 e 1976) e a Salvador – Rio, que era a regata mais longa do nosso calendário.

 

Com tudo isso, passei a ser o representante brasileiro junto ao Offshore Racing Council, em Londres, de 1972 a 1980, além de ter sido membro das Comissões de Regatas da Two Ton Cup de 1976, em Kiel, e da One Ton Cup em Newport, RI, em 1979, como representante oficial do ORC nesses eventos.

 

Já no âmbito da CBVM, passei a fazer parte da sua Diretoria como 2º Vice Presidente (Técnico). O Presidente era o Almirante Dantas Torres e o 1º  Vice Presidente (Administrativo) era o Alzir Farias. Nessa capacidade, que se estendeu de 1972 a 1980, eu consegui, com o apoio do German Frers (pai), uma representação para o Brasil na IYRU, pois até então ele representava todos os Países da América do Sul. Depois que me desliguei da CBVM, após a Olimpíada de 1980, o Dennis Clemence e posteriormente o Peter Siemsen passaram a representar o Brasil nessas Entidades.

 

Realizamos nos anos 70 o Mundial de Snipe no Rio, em 1971; o Mundial de Laser, em Cabo Frio (1976) e o de Star no Rio, em 1980. Reformulamos toda a estrutura da vela de competição no Brasil, com a definição de critérios específicos para as eliminatórias aos Jogos Olímpicos a partir de 1976 e a introdução da pessoa de um técnico para nossas equipes olímpicas (o primeiro foi Boris Ostergren), que até então levavam apenas um barqueiro/carpinteiro, função magnificamente exercida por muitos anos pelo Oskar Weckerle, do YCSA.

 

 

Os resultados dessa nova estrutura se fizeram presentes com as duas medalhas de ouro obtidas em 1980 nas classes Tornado (Alex Welter e Lars Bjorkstrom) e 470 (Marcos Soares e Eduardo Penido), que lançaram o Brasil de vez no cenário da vela olímpica, até então representada apenas pelas duas medalhas de bronze de Reynaldo Conrad na classe Flying Dutchman em Winnipeg e em Acapulco.