Santos Rio chega a 65ª Edição com quebra de recorde

Com a chegada do último barco na tarde desta segunda-feira, fica oficializado o término da 65ª Regata Santos Rio. Para aqueles que estavam com medo ou receosos de enfrentar o percurso de 190 milhas, a surpresa foi grande: vento moderado, de 8 a 15 nós, pouca onda e um contra-vento direto, sem manobras, da cidade paulista até a capital carioca.

 

Quem está acostumado a participar desta competição garante que esta edição foi uma das mais tranquilas dos últimos tempos. Tão tranquila que teve até quebra de recorde. Os gaúchos do Camiranga, um Soto 65, completaram a prova em 18h9min. O antigo recorde pertencia ao Sorsa III, um Farr 53, e era de 19h33min.

 

Apesar da aparente tranquilidade, muita coisa aconteceu antes e durante a regata. Na ida para Santos, três barcos sofreram avarias. O Miragem acabou rasgando as velas de transporte, mas nada que impedisse o time de participar da regata. Já o Magia e o Zing 3 não tiveram a mesma sorte. O S40 de Torben Grael quebrou o mastro, enquanto o Zing pegou fogo e afundou. Os três tripulantes só tiveram tempo de pular para a balsa salva-vidas e acabaram resgatados por um navio de contêineres chinês.

 

Durante a regata quem também não teve sorte foi o Viva Extraordinário II. O barco quebrou o leme no través da Ilha Grande e acabou sendo rebocado pelo Lady Milla até Angra dos Reis. Parabéns aos tripulantes do Lady Milla pelo resgate e pelo espírito marinheiro de largar a regata para socorrer os adversários!

 

Abaixo o relato da tripulante do Viva Christina Frediani sobre o resgate:

 

“A regata Santos Rio sempre foi um mistério para mim. Apesar de ser apaixonada pela vela desde criança, a Santos Rio não fazia parte do meu currículo.

 

Sempre escutei muitas histórias dessa regata, com lestada de contravento a 45 nós e ondas, Sudoeste com porranca de quebrar mastros, falta de vento com corrente forte na chegada onde os barcos tiveram que lançar ferro para não andar para trás. Muitas histórias que me fizeram protelar a minha experiência nesta regata.

 

Enfim, este ano decidi correr. Pensei: Pode ser a primeira e a última, ou pode ser a primeira de muitas.

 

O comandante do barco Viva Extraordinário II, Eduardo Régua, fez o convite para correr o circuito e a Santos Rio. O barco é um GP33, projeto de um barco planador, que lembra um pouco o C30, que sofreu modificações de projeto na quilha para atender condições de pouco calado na área de navegação do último proprietário (SC). A quilha foi reduzida em comprimento e acrescida de 350 kg, o que naturalmente deixou o barco com menos orça e dificultou o potencial de velejada.

 

De acordo com o comandante Eduardo, o casco foi feito com esmero em divinicel. Há um ano, foi feito uma digitalização 3D com uma máquina de alta precisão e foi comparado com o projeto original. O erro? Menos que 2mm!

 

Nesses últimos 3 meses, o comandante comprou velas novas de carbono e de ponta da Olimpic, melhorou a ergonomia, revisou motor, estaimento. Uma lista enorme de itens foram checados.

 

Foi atendida também toda a lista de material obrigatório de segurança exigido para a regata Santos Rio e alugamos também um spot, para garantir um pouco mais de segurança. Esse último, constava como opcional.

 

E tudo preparado para correr a Santos Rio, com tripulação completa – 8 à bordo. 2 tripulantes de Santa Catarina, um de Ilhabela e os demais do Rio de Janeiro.

A largada em Santos aconteceu com pouco vento. Após duas chamadas gerais, ocorreu a terceira largada.

 

A regata foi com pouco vento e pouco mar. Talvez um metro de onda no máximo e entre 7 a 14 nós de vento. Dizem que foi a Santos Rio mais tranquila que houve, com direito a record batido pelo Camiranga.

 

Após menos de 23 horas de regata, estávamos ao sul da ponta de Castelianos em Ilha Grande. Neste momento, o Pablo, que estava no timão, notou algo diferente no leme. Ele achou que alguma escota havia se prendido debaixo da cana. Segundo depois simplesmente ficamos sem pressão alguma no leme – por alguma razão o leme foi para o fundo do mar.

 

Baixamos as velas e em seguida nosso comandante prontamente providenciou um leme de fortuna.

Nesse momento, lembrei da história recente sofrida pelo Paulo Freire no seu barco Miragem, que perdeu o leme em uma regata para a ilha do pai. Dificuldades na manobra e no reboque. Pensei – não vai ser fácil, mesmo com mar relativamente tranquilo (1m).

 

Jogamos cabos e uma boia com corrente para aumentar o arrasto na popa, e mesmo com o leme de fortuna, era difícil manter a proa com um pouco de motor. Estávamos a dois nós de velocidade e tentando rumar para o Rio de Janeiro, mas demoraríamos umas 55 horas nessa velocidade e com essa variação de proa – 40 graus para um lado e para outro. Não teríamos diesel para chegar de volta e sem Diesel, não poderíamos carregar nossas baterias.

 

Nesse meio tempo, passamos a nossa posição e situação para Echo 21, Delta 24 e NPOc Amazonas (Capitão Tenente Nadal),  que também estava ciente e acompanhando a situação. Também acionamos no spot o botão que estávamos com problemas técnicos, Assim, da varanda do ICRJ era possível saber que estávamos com problemas. O Lady Milla, que encontrava-se próximo imediatamente nos passou rádio para nos prestar socorro e após avaliação da nossa situação, optamos pela ajuda e reboque.

 

Nesse meio tempo, já na quarta tentativa de reboque depois de cabos partidos, decidimos por tentar levar o barco no motor e com leme de fortuna, pois com o aumento das ondas, nosso púlpito de proa estava estourando e os cabos também não resistiam à ocilação da proa e ás ricocheteadas dos cabos.

Em uma das vezes, um cabo que estourou, passou ao lado de dois tripulantes, em um chicotada que poderia ter consequências sérias. Por sorte, não alcançou ninguém.

 

Na última manobra com o Lady Milla, um dos cabos de reboque enrolou no motor e o Tolentido informou que à bordo do Lady Milla, havia um mergulhador, que prontamente nos ajudou a recuperar nosso motor, safando o cabo.

 

Já cruzando a ponta dos Castelianos, escoltados pelo Lady Milla e já no crepúsculo, chega o Catamarã Reforça (SP) do comandante Armando, que já tinha nos oferecido ajuda pela ponte com o Delta 24. Com isso, liberamos o Lady Milla, e seguimos para Abraão. No dia seguinte, o barco seguiu para a Verolme para reparos.

 

A lição dessa regata?

 

É que não temos palavras para expressar nossa gratidão para o comandante Ricardo Tolentino e tripulação do Lady Milla, ao comandante Armando de Oliveira e tripulação do barco Reforça, à equipe do ICRJ – Madureira e Cia, ao voluntário Edmundo Souto do ICRJ que se predispôs a levar diesel do Rio para nós, à Marinha do Brasil representada pelo NPOc Amazonas (Capitão Tenente Nadal), às estações radio Echo 21 e Delta 24, dos amigos Renato Cunha, Dondeu, Donatário, Paulo Freire, Mari Peccicaco dentre tantos outros que tentaram ajudar com informações, orientações e mensagens de ajuda.

 

Por fim, temos que repensar nossas referências em segurança. O barco Zing 3 afundou no trajeto do Rio para Ilhabela e a tripulação só foi salva porque tinham balsa salva vidas e o spot, após 13 longas horas no mar à deriva.

 

Ou seja, a importância de itens de segurança e rastreamento devem fazer parte da nossa cultura.

 

Ontem pedi para me incluírem na comissão a ser feita pela ABVO para tratar de segurança em regatas longas. Voluntários são bem-vindos!

 

Meus sinceros agradecimentos a todos envolvidos nessa faina.

Meus parabéns ao comandante Eduardo Hamond Regua e à equipe do Viva Extraordinário II pela calma, foco, espírito de equipe e maturidade.

 

 

Muito obrigada!