Simétricos ou Assimétricos na IRC: qual a melhor opção e por quê?

Nos últimos 15 anos as opções de escolha do tipo de balão para correr regatas aumentaram consideravelmente. Antigamente era bem simples: você comprava um balão simétrico leve, uma versão similar mais pesada para ventos mais fortes e talvez um balão de través. Só que através de estudos e desenvolvimentos, os fabricantes de  velas levaram os balões assimétricos a níveis de eficiência há poucos anos não imaginados. Tão assim que muitos modelos de barcos vêm de fábrica só com a opção de balões assimétricos. Entre eles, o estaleiro J-Boats, dos EUA. Um armador dum J-109 pediu para trocarmos de A´s para simétricos no barco dele. Fizemos um estudo e as conclusões são as seguintes. Segue uma analise de qual opção é a melhor para correr regatas inshore/offshore.

Vejamos primeiro os prós e contras de cada opção:

Assimétricos

Pros: – Facilidade de trimado e manuseio

– O rating na IRC permite balões assimétricos maiores em área para um mesmo peso  em rating relativo a um balão simétrico

– Formato muito eficiente quando ventos francos devido a capacidade de permitir um melhor fluxo e saída do ar pelo borde de fuga

– Os modelos Código 0, os assimétricos bem planos para francos bem apertados, são obrigatórios a bordo se estamos planejando regatas offshore.

Contras: – Precisam de um gurupés ou extensor na proa para permitir vento mais limpo inflá-lo

– Não conseguem voar facilmente nas popas rasas como os simétricos

– Em ventos mais fortes tem maior facilidade em enrolar no estai de proa quando damos um gybe

– Os gybes são sempre mais lentos e precisam de maior mudança de rumo do barco que com um balão simétrico

Balões Simétricos

Prós: – Acima dos 12 nós TWS são muito eficientes quando o pau é caçado bem perpendicular ao barco

– Tripulações mais experientes têm maiores opções táticas

– Gybes são muito rápidos e com pouca variação de rumo do barco

Contras: – São “caros” no Certificado IRC: num J-109, convertê-lo para simétrico, representam aproximadamente 7 pontos de rating para um balão do mesmo tamanho

– Não são tão eficientes nos francos devido ao formato simétrico

– Mais complicados de içar e de marear da forma correta

Na nossa veleria temos um cliente que optou por passar seu J-109 de balões assimétricos para simétricos, num barco que foi desenhado para velejar só de A´s. Antes de bater o martelo empreendemos uma serie de cálculos e certificados testes para ter certeza dos benefícios que poderíamos obter. A resposta é: Não há resposta certa!

Se você pudesse ter dois certificados IRC simultâneos, um simétrico e um assimétrico, e pudesse escolher um para cada regata, teria que ter os dois sistemas. De fato a regra não permite ter dois certificados ao mesmo tempo e as Comissões Organizadoras de regatas em geral pedem os certificados até com 10 dias de antecedência á primeira regata para evitar certificados específicos para o tempo pronosticado para essas datas.

Assimétricos geralmente são mais eficientes em veleiros de cruzeiro em menos de 12 nós TWS, que os simétricos; por que?

Com menos de 12 nós de vento verdadeiro é mais difícil trazer o pau para popa e o balão colapsa pelo próprio peso. Então, um barco que voa A2 terá a mesma possibilidade de arribar quanto um barco que voa S2, mas na IRC o A2 pode ter maior área ou um rating menor, o que pode ser uma vantagem no final do campeonato. Aparentemente a IRC penaliza em até 7 pontos (num J-109) por causa da capacidade de abrir o pau e velejar mais arribado.

Com ventos leves, se não puder abrir o pau, está em desvantagem. Se agregarmos que com ventos leves temos que velejar ligeiramente mais orçados, situação onde os assimétricos são mais eficientes, a figura está completa.

Balões simétricos são mais eficientes em popas com mais de 14 nós TWS. Por que?

Uma vez que um barco de simétricos consegue trazer seu pau tudo para trás, ele vai andar quase que popa redonda, ou uns 10° fora disso. Um barco do mesmo desenho, mas com assimétricos, terá a mesma velocidade mas terá que orçar entre 10° e 20° graus a mais que o outro. Quando os dois cheguem ao sotavento, o simétrico terá uma vantagem de até 60 segundos sobre seu concorrente. Somando a facilidade de soltar gybes mais rapidamente para estar sempre em fase com o vento e sair da sombra dos outros barcos, essa distância só cresce.  E se o vento subir na casa dos 20 nós, esse beneficio só aumenta.

Assimétricos são geralmente mais vantajosos em regatas percurso ou offshore

Isto é porque os exemplos mencionados acima se referem a regatas com percurso de popa redonda, como os encontrados nas regatas barla-sota entre bóias. Em regatas de percurso fixo, dum ponto ao outro, com ou sem marcas intermediárias, é muito mais provável que tenhamos uma alta percentagem de velejada em francos. Os barcos de A´s então tem a vantagem do rating e a maior eficiência das velas.

E em relação ás tripulações?

Marear um balão simétrico é bem mais complicado e precisa de muito mais atenção que um assimétrico: Temos escota do pau, escota de sota, amantilho e burro para altura do pau e posição no mastro. Todo isso precisa de ajustes quase que constantes. E os gybes são realizados por pelo menos quarto tripulantes.

Trimar o simétrico é bem mais simples: habitualmente só usamos a escota de sotavento, e em contadas vezes se ajusta o pé (tack) do balão. O resultado de isto é que com simétricos precisamos de uma tripulação mais preparada, atenta e treinada.

Podemos ter as duas versões de velas?

Todo barco que escolha a versão simétrica deveria pensar em incorporar uns balões assimétricos também. Precisará dum gurupés ou extensor curto para os casos de francos com velas A´s. A regra IRC permite o gurupés num barco configurado como simétrico, em tanto e quanto o gurupés não se estenda além do comprimento do pau de spi.

Contudo, o tamanho do SPA dos A´s não pode ser maior que o declarado do maior balão simétrico.  No caso do nosso J-109, optamos por um simétrico de área 5,5% menor que o permitido pela classe nos assimétricos. Com isso “salvamos” dois pontos de rating e assim baixamos o déficit de 7 pontos para 5 em total. Incorporamos dois assimétricos: um Código 0 para francos e um A0 para popas de ventos mais leves.O A0 pode ser usado dum gurupés curto o no pau de spi na posição inferior no mastro para abri-lo em popas.

Mudanças em caso de troca de balões

Para um barco configurado para balões simétricos, as mudanças necessárias são:

– um gurupés

– escotas de A´s

– novas velas A´s

– um sistema de escota do pé do balão no gurupés até o cockpit

Para um barco de configuração A´s que passe para simétricos, as mudanças são:

– um pau de spi

– um trilho ou pontos fixos no mastro

– moitões e cabos adicionais para marear as escotas de barlavento, amantilho e burro do pau

– novas velas simétricas, e talvez um par de assimétricos

Se estivermos encomendando ou comprando barco novo, é bom incorporar as duas possibilidades no projeto do convés, independente de qual opção será escolhida.

Entâo, qual sistema escolhemos?

Como comentado no primeiro parágrafo, não há uma escolha certa; mas aqui temos alguns parâmetros que ajudam a escolher:

– em barcos leves e planadores, ir sempre de A´s

– com tripulações reduzidas ou menos experientes, vai de A´s, que são bem mais fácil de manusear

– para regatas costeiras/offshores, vai de A´s

– para regatas barla-sota de ventos francos, vai de A´s

– para regatas barla-sota com ventos mais fortes, vai de simétricos

– para regatas em condições inconstantes, as duas opções são boas; mas se tiver uma tripulação treinada, ir de simétricos pode ser uma vantagem

 

Artigo publicado na Scuttlebutt Sailing News do 23/04/2020 por Barry Hayes bhayes@uksailmakers.com