Ventaneiro 3 é o grande campeão da 70ª Santos Rio

Barco de Martine Grael completa pódio. Torben Grael no barco da CBVela vence na IRC

                                                                                                                            Foto: Barco Ventaneiro 3 / Crédito: Aline Bassi / Balaio de Ideias 

Assim como era esperado, os velejadores encararam condições quase que extremas e das mais difíceis das sete décadas da regata mais tradicional do Brasil, a Santos-Rio, que teve no final de semana sua 70ª edição contabilizando número recorde de 68 barcos e 500 velejadores de todos os cantos do país.

Com um contra-vento na casa dos 30 nós, iniciado na região de Ilhabela (SP) e que persistiu por boa parte do trajeto, metade da flotilha acabou tendo problemas e desistindo na região ou na Baía de Angra dos Reis.

O veleiro carioca Ventaneiro 3, comandado por Renato Cunha, foi o campeão geral e vencedor na classe ORC com 42 horas, 47 minutos e 4 segundos, no tempo corrigido ficando com 34 horas, 34 minutos e cinco segundos, deixando em segundo lugar o Xamã Red Nose, do Yacht Club de Ilhabela (SP), comandado por Sergio Klepacz e o Rudá Blue Seal, barco de Santos (SP), finalizando em terceiro. O Blue Seal é comandado por Mario Martinez e teve na tripulação Martine Grael, campeã Olímpica na Rio-2016 e uma das candidatas à medalha em Tóquio-2021.

Renato Cunha comemorou a vitória e lembrou da conquista da desafiadora regata Buenos Aires - Rio de Janeiro de 2017 com condições semelhantes: "Ganhar a edição 70 da Santos - Rio é uma sensação maravilhosa, edição que contou com recorde de inscritos, a nata da Vela brasileira. Excepcional, estamos todos muito felizes. Tivemos participação de três velejadores Optmist, três mirin,s entre eles meu filho Zion, de 11 anos, que já carimbou o diploma de velejador Santos-Rio. Uma regata que foi de endurance, tripulação que mostrou muita determinação e somados ao barco que atende bem às duras condições", disse.

"Foi um grande aprendizado completar essa 70ª Santos Rio com frente fria e contra-vento. Depois de tentar uma rota lone da costa pegamos marés gigantes e progresso bem lento . Foi uma noite muito molhada. Chegamos a pegar 30 nós de vento. Enquanto fizemos alguns peelings (trocas de vela de proa) que nos resultou em um velejar mais confortável, mas também água em cada pedaço de roupa"Um pouco de água salgada pode ter causado falha em nossos instrumentos. Avistei a ilha grande logo antes do meio-dia, fizemos estimativas de 2, 3 ou 4 horas para passar por ela, mas a realidade é que com ondas e corrente contra, velejamos mais de seis horas para entrar na restinga de Marambaia. A última noite foi bem fria, o cansaço bateu só que dentro do barco ficou impraticável o descanso. Todos queríamos chegar logo para tomar um banho quente. Quando cruzamos a linha foi só comemoração. Missão cumprida. Todas as dores, desconfortos e necessidades do corpo vieram à tona", disse Martine Grael. 



"Regata bastante dura, bastante difícil, avarias nos barcos, abandonos. Foi uma das mais duras que já tivemos, muito mar, muita onda, mas conseguimos", disse Fernando Thode, do barco Blue Seal que destacou a importância de Martine Grael à bordo: "Além de ser muito boa nas funções de timoneira do barco também ajudou muito nas manobras do barco, conseguimos dessa forma chegar em boas condições. Óbvio que queríamos ganhar a regata, mas o terceiro lugar no tempo corrigido foi uma boa colocação. Estamos ainda todos doloridos pelos golpes provocados pelas ondas, algumas avarias, mas nada muito grande".

O quarto lugar ficou com o barco carioca Sorsa III, do Iate Clube do Rio de Janeiro, que foi o primeiro a cruzar a linha de chegada entrando na Baía de Guanabara pela Ilha da Laje às 2h34min da madrugada de domingo, dia 25. No tempo real foram 37 horas, 48 minutos e 34s. O Sorsa, comandado por Celso Quintela, levou pela terceira vez seguida o tradicional título de Fita Azul dado ao veleiro que chega em primeiro lugar, mas no tempo corrigido acabou em quarto.

"Aprendemos a fazer isso (chegar como Fita Azul). O barco é muito bom e sempre contamos com tripulação de extrema qualidade, condições bastante difíceis, nada extraordinário, mas muito penoso. Na minha memória pesada recente essa foi a mais pesada Santos-Rio", disse Quintela. 

O Avohai, comandado por Lars Grael, duas vezes medalhista olímpico em Seul 1988 e Atlanta 1996, terminou na quinta colocação. Foi a 19ª participação do ícone da Vela brasileira na regata.

"Foi uma regata singular, primeiro pois teve recorde de participantes, participação recorde na regata, barcos da Marinha, homenagens. A regata em si não foi fácil, basta ver minha imagem que mostra o cansaço. Ondas de três até três metros e meio, vento contra, ondas contra, algumas quebras, pessoas machucadas. Quem chegou aqui no Rio de Janeiro é um vitorioso, prevaleceu o espírito marinheiro. Estivemos próximo do limite em termos de segurança, mais do que isso seria recomendável os barcos abandonarem a regata e procurarem local seguro. Mas esses desafios fazem parte da tradição da Santos-Rio, não é uma regata fácil. É um percurso difícil seja pela falta de vento, excesso de vento, pela mudança de ventos, requer uma tripulação trabalhando o tempo todo. Nosso barco estreando na regata teve problema com as velas, as genoas, elas rasgaram, ficamos sem opção o certo seria abandonar a regata, mas improvisamos parte usando velas leves e parte de passeio que a performance é muito ruim. No sábado vínhamos em uma boa posição, mas para poder completar abrimos mão de muitas colocações porque não era uma vela de regata. Ter chegado aqui é uma vitória".

 
Foto: Rudá/CBVela / Crédito: Juan Sienra - CBVela/COB

O barco Rudá/CBVela, de Santos (SP), que contou com o bicampeão olímpico Torben Grael no comando diante do time da Vela Jovem brasileira com nossos talentos do futuro, foi o oitavo barco a finalizar a regata e conquistou o troféu na classe IRC. Torben e os meninos e meninas entraram na Baía de Guanabara pouco depois das 8h da manhã de domingo.

Sobrinho de Torben, Nicholas Grael, de 23 anos, filho de Lars, comentou a experiência inédita na Santos-Rio sendo comandado por Torben que é o maior campeão da história com oito conquistas no total (seis como comandante e dois como tripulante): "Foi muito bom, Torben nos transmitiu muito conhecimento, fora toda a segurança e alto desempenho que ele passa por toda sua experiência", disse Nicholas: "Experiência foi muito boa, regata muito desgastante, primeira noite com muito vento, muita água na cara, tivemos problemas com as velas, duas buchas que explodiram, um grande que rasgou também, mas fora isso tudo foi muito bom. Os perrengues passam e o que fica são os momentos bons. O astral à bordo foi muito bom, clima muito bom, todo mundo dando o seu melhor, com muita garra e determinação e obtivemos nosso objetivo que era ganhar a regata".

O segundo lugar da IRC ficou com o Saravah com Alain Joullliè, de 85 anos de idade, que disputou as regatas de 1952, 1953 e 1954 e não participava há oito anos da Santos-Rio. Seu filho, Pierre Joulliè comandou o barco que teve o neto Felipe, de 14 anos, na disputa. Único veleiro comandado por uma mulher na 70ª Santos-Rio, liderado por Elisa Mirow, fechou o pódio na classe. 


"Fomos brindados com uma regata duríssima, digna dos 70 anos desse desafio. Todas as mais difíceis condições imagináveis para uma Santos-Rio. Agradecer À Marinha do Brasil com a presença do Cisne-Branco na largada, ao apoio no percurso e aos barcos que se acidentaram, agradecer ao Iate Clube de Santos, Iate Clube do Rio de Janeiro e CBVela que mandou sua equipe de jovens talentos. Fica o convite para o 51º Circuito Rio que é o Brasileiro ORC e também ao Brasileiro IRC em Ilhabela no mês que vem", disse o comodoro da ABVO, Mario Martinez. 

"Foi um grande sucesso a regata, muito dura, 40 desistências, mas independente disso muito sucesso pela Santos-Rio ter renascido após número muito baixo nos últimos anos e esses 68 barcos dá a esperança que ela possa ter maior atenção na vela brasileira", disse Ricardo Baggio, diretor de Vela do Iate Clube do Rio de Janeiro, que já colocava o Ventaneiro 3 como um dos favoritos diante das condições que se apresentavam.

"Não foi surpresa o Ventaneiro 3 ter vencido. Imaginava ele ser um dos favoritos. Foi uma regata bem estratégica principalmente na região de Ilhabela no que os barcos fariam em passar por dentro do canal de ilhabela ou pelo oceano e o barco acertou. Além disso o barco é muito bom, venceu a Buenos Aires - Rio com condições semelhantes e tem uma tripulação muito experiente", seguiu.

A premiação da 70ª edição da Regata Santos-Rio acontecerá no sábado, dia 31, a partir das 19h, sem a tradicional festa aos velejadores por conta da pandemia do COVID-19.

Antes, a partir desta sexta-feira, dia 30, será dada a largada para o 51º Circuito Rio, na Baía de Guanabara, até o dia 2 de novembro, que vale como Campeonato Brasileiro da classe ORC.

ORC

1 - Ventaneiro 3 - 34h34min05s (tempo corrigido)
2 - Xamã Red Noose - 35h25min02s 
3 - Rudá Blue Seal - 37h00min26s
4 - Sorsa III - 37h48min34s
5 - Avohai - 38h11min53s
6 - Maximus - 38h12min44s
7 - Crioula 29 - 39h21min34s
8 - King - 39h59min18s
9 - +Bravissimo - 40h02min32s
10 - Marujo´s - 41h31min13s
11 - Maestrale Due - 46h36min35s
12 - Bravo - 49h16min09s  
13 - Vesper IV - Não completou 
14 - Inae 40 - Não completou

IRC

1 - Rudá/CBVela - 1 dia, 23 horas, 18 minutos, 59s (tempo corrigido)
2 - Minna 1 - 2 dias, 7 horas, 50 minutos, 8s
3 - Boto V - 2 dias, 8h, 55min 38s
4 - Saravah - 2 dias, 10h 5min 53s
5 - Villegagnon - 2 dias, 11h, 19min 55s
6 - Aries - Não completou
6 - Klimax - Não completou
6 - Montecristo - Não completou
6 - My Boy - Não completou

BRA-RGS

1 - Pangea - 2 dias, 4 horas, 57 minutos, 9 segundos (tempo corrigido)
2 - Zeus - 2 dias, 6h, 26min,19s
3 - Dona Bola - 2d, 9h, 12min, 4s
4 - Xekmat - 2d, 10h,26min,17s
5 - Beleza Pura - 2d,12h, 15s
6 - Aventura III - 2d, 12h, 21min, 5s
7 - Susso 2d, 15h, 43min, 33s
8 - Sagarana - Não completou
8 - Sexta-Feira - Não completou
8 - Tapioca - Não completou
8 - Tuchaua - Nãocompletou
8 - Yallah - Não completou
8 - Zuriel - Ainda na regata
8 - Almaviva VI - Não completou
8 - BL3 Urca - Não completou
8 - Born Free - Não completou
8 - H3+ - Não completou
8 - Kaze - Não completou
8 - Malungo - Não coompletou
8 - Nativo 2 - Não completou
8 - Panda - Não largou 
 
 A 70ª Regata Santos-Rio teve a organização do Iate Clube de Santos em conjunto com o Iate Clube do Rio de Janeiro e conta com os apoios da Associação Brasileira de Veleiros de Oceano, a ABVO, a CBVela, e a Prefeitura de Santos.